A Ordem da Viagem Importa: Lições de Duas Viagens pela Ásia

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Em 2016, aos 22 anos, comprei passagens para a Ásia sem pensar muito. Queria conhecer o mundo, estava cheia de coragem e pouca experiência. Contratei uma agência de viagens pela primeira vez, acreditando que isso garantiria uma experiência tranquila e econômica. O que eu não sabia era que estava prestes a aprender, da forma mais difícil possível, uma das lições mais importantes sobre viajar: a ordem importa. Não basta escolher destinos incríveis. É preciso criar uma narrativa que evite quebras de expectativa e transforme a jornada em algo crescente, não decrescente.

Nove anos depois, em 2025, voltei à Ásia. Dessa vez aos 31 anos, acompanhada do meu pai, minha tia e minha esposa. Foi uma viagem completamente diferente, não só pela companhia, mas pela forma como foi pensada. E é sobre essas duas jornadas, seus perrengues, suas lições e a importância de planejar com propósito que quero falar aqui.

2016 - A Mochileira Solitária e a Viagem sem Narrativa

Minha primeira ida à Ásia durou 25 dias e passou por quatro países: Singapura, Tailândia, Camboja e Indonésia. Parecia um roteiro dos sonhos no papel, mas na prática, a ordem escolhida criou uma experiência frustrante em vários momentos. Comecei por Singapura, passei pela Tailândia, fui para o Camboja e terminei na Indonésia. O problema? Cada transição era uma queda. Saí de lugares mais organizados e limpos para lugares mais caóticos e rústicos. E isso, inevitavelmente, gerou decepção.

Singapura foi minha porta de entrada. Lembro de ter economizado ao extremo e ficado em um hostel que custava 1 ou 2 euros por noite. Foi o pior lugar em que já me hospedei na vida. Mais de 30 camas no mesmo ambiente, banheiro estilo asiático (um buraco no chão com chuveiro em cima), e uma sensação constante de insegurança. Havia muitos homens trabalhando por ali, e eu dormia com a mochila como travesseiro para ter certeza de que ninguém roubaria meus pertences. Era tudo o que eu estava disposta a fazer para economizar aos 22 anos, mas hoje sei que não vale a pena colocar a segurança em risco.

Na Tailândia, conheci templos deslumbrantes, ilhas paradisíacas como Koh Phi Phi e Koh Samui, e passei dias em Bangkok explorando a cidade. Visitei o santuário de elefantes, o templo dos tigres e mergulhei na energia caótica e vibrante do país. Mas foi também onde tive minha primeira grande crise: uma intoxicação alimentar. Comi arroz com ovo que ficou sem refrigeração das seis da manhã ao meio-dia durante um passeio. Tinha tudo certo para dar errado. No meio de uma transferência complexa entre Koh Phi Phi e Koh Samui (barco até Krabi, ônibus até a ponta leste, outro barco até Koh Samui), percebi que ia perder a consciência de tanto vômito e diarreia. Fui ao hospital, fui super bem atendida e, felizmente, o seguro viagem cobriu tudo. Mas a experiência me fez repensar minha relação com a comida de rua e me levou a comer mais opções internacionais pelo resto da viagem. Ainda assim, no final, comi um escorpião frito na Khao San Road em Bangkok. Foi crocante demais para ser um camarão, com gosto de óleo e nada mais. Valeu como experiência para contar, mas não repetiria.

No Camboja, visitei Angkor Wat, que foi absolutamente sensacional. A história, a arquitetura, a grandiosidade dos templos são de tirar o fôlego. Mas depois de ter passado pela Tailândia, que já é um país mais desenvolvido e organizado, o Camboja pareceu ainda mais caótico e sujo do que realmente é. Não foi culpa do país. Foi culpa da ordem.

E então veio Bali, na Indonésia. O lugar é lindo, com praias incríveis e arrozais de cinema. Mas foi onde vivi alguns dos momentos mais difíceis da viagem. Logo ao chegar, perdi meu passaporte ao descer do táxi para sacar dinheiro. Só percebi 40 minutos depois, quando cheguei ao hotel. Jovens encontraram o documento e entregaram à polícia, mas os policiais, conhecidos por serem corruptos, não me devolveram de imediato. Fiquei dias em Bali com um documento temporário e depois tive que ir até Jacarta para fazer um novo passaporte. Foi estressante, burocrático e assustador.

Mas o pior foi o assédio. Viajando sozinha, eu era constantemente perseguida. Quando saía para jantar, quatro ou cinco homens me seguiam. Em um restaurante, me ofereceram um drink, recusei, e me forçaram a experimentar. Terminei de comer às pressas, deixei o dinheiro na mesa e saí quase correndo. Foi uma sensação horrível de vulnerabilidade. Hoje, se eu tivesse que escolher, a Indonésia não seria um destino para eu ir sozinha. Acompanhada, talvez. Mas não por escolha própria.

Aluguei uma moto para explorar Bali, mesmo sem carteira de moto. Foi uma loucura, considerando o trânsito caótico e a polícia corrupta que faz de tudo para aplicar multas. Algumas vilas têm moradores que cobram pedágio informal só porque acham que podem. Foi uma experiência de liberdade, mas também de risco constante.

Olhando para trás, percebo que a ordem dos países criou uma narrativa decrescente. Cada lugar parecia pior que o anterior, não porque fosse ruim, mas porque a comparação era inevitável. Se eu pudesse refazer, a ordem ideal seria: Camboja → Vietnã → Indonésia → Tailândia → Singapura. Assim, a experiência seria crescente, terminando nos lugares mais organizados e modernos, sem quebras de expectativa.

2025: A Viagem em Família e a Narrativa Bem Construída

Nove anos depois, voltei à Ásia. Dessa vez, a viagem durou 35 dias e foi pensada com cuidado. Estávamos eu, minha esposa, minha tia e meu pai. Eles queriam muito conhecer a Ásia, especialmente as praias da Tailândia, e meu pai tinha um sonho antigo de visitar o Vietnã, inspirado por um livro que leu na juventude. A ordem foi estratégica: Vietnã (sul para o norte) → Tailândia → Singapura.

O Vietnã foi a grande revelação. Começamos por Ho Chi Minh, no sul, uma cidade cosmopolita, cheia de estrangeiros e com uma vibe mais ocidental. De lá, fomos para Hoi An, a cidade das lanternas, que é simplesmente encantadora. Depois, Da Nang, Ninh Binh (com suas montanhas, barcos nos rios e passeios de bicicleta) e, finalmente, Hanoi, no norte. A diferença entre sul e norte é gritante. O sul é mais moderno, limpo e organizado, enquanto o norte é mais tradicional, histórico e caótico. Por isso, a dica de ouro é: comece pelo norte e vá descendo. Assim, você cria uma narrativa crescente, terminando com a experiência mais moderna e confortável, sem quedas de expectativa.

O Vietnã me surpreendeu pela hospitalidade. Eu achava que a Tailândia era o lugar mais acolhedor da Ásia, mas o Vietnã superou. As pessoas não falam tanto inglês, mas têm uma preocupação genuína em fazer o turista se sentir bem, confortável e bem servido. Os preços são absurdamente baixos. Nunca pagamos mais de 100 reais por noite em hospedagem, mesmo buscando lugares limpos e bem localizados. As refeições custavam cerca de 20 reais. É muito mais acessível que a Tailândia e a Indonésia, que já são destinos mais conhecidos e, consequentemente, mais caros.

A história do Vietnã é fascinante. O país se abriu nos anos 90, e muitas coisas sobre a guerra não foram bem contadas no Ocidente. Conhecer os templos, as dinastias, a forma como lutaram e se organizaram foi profundamente educativo. Meu pai ficou encantado. Ele não só realizou o sonho de conhecer o país, mas também levou aprendizados sobre hospitalidade e cuidado com o cliente para o próprio negócio dele. Ele achou que teríamos mais praias no roteiro, mas o foco foi histórico, e ele amou.

Fizemos um passeio de barco de dois dias pela baía em Halong Bay, ficando hospedados no próprio barco. Foi sensacional. Mas foi também onde tive meu segundo grande perrengue: rompi dois ligamentos do pé ao colocá-lo entre duas ripas de madeira durante um dos passeios. Isso aconteceu na metade da viagem, e minha esposa precisava voltar para o Brasil antes de nós. Fiquei com meu pai e minha tia, que não falam inglês, e tive que continuar me movimentando. Caminhava cerca de 5 km por dia, mesmo com o pé machucado. Fui ao hospital, fui super bem atendida, e o seguro viagem me ressarciu uma semana depois. Mais uma vez, a estrutura de saúde asiática se mostrou eficiente e acessível – o próprio: PARA TURISTA VER.

Uma reflexão interessante foi sobre o budismo. Na Tailândia, em 2016, tive uma percepção espiritualista e esotérica dos templos. Em 2025, porém, percebi um viés muito mais econômico: monges vendendo coisas, pedidos constantes de dinheiro para manutenção dos templos. No Vietnã, o budismo é mais cru e autêntico. Os templos são mais afastados, e os monges não podem aceitar presentes de turistas. Eles têm que viajar pelas próprias vias. Isso mudou completamente minha percepção sobre a religião de um país para outro.

Na Tailândia, ficamos 20 dias. Os preços aumentaram bastante desde 2016, especialmente em lugares turísticos como Koh Phi Phi. Mas ainda assim vale a pena. As praias são lindas, a energia é contagiante, e combinar Vietnã e Tailândia é uma forma inteligente de equilibrar história, natureza e diversão. Porém não esqueça: o clima entre os países vizinhos é bastante diferente, por ser um país vertical as temperaturas variam bastante entre norte e sul do Vietnam.

Terminamos em Singapura, dessa vez com mais conforto. Ficamos em um hotel estilo Ibis Budget em Chinatown, bem localizado e limpo. Fizemos um tour histórico de ônibus, visitamos o jardim botânico, o Gardens by the Bay com o show de luzes e música, e passeamos por shoppings. Cinco dias foi tempo suficiente, especialmente considerando que não fomos para as praias. Singapura é cara comparada ao Vietnã e à Tailândia, mas é o fechamento perfeito para uma viagem que começa mais rústica e termina mais sofisticada.

A Grande Lição: A Narrativa Importa

Viajar sem narrativa significa não pensar na ordem do roteiro. Significa escolher destinos apenas por serem bonitos ou baratos, sem considerar como a sequência afeta a experiência. Vou dar exemplos práticos:

Singapura→Tailândia → Camboja: A percepção de limpeza do Camboja fica ainda pior porque você tem algo mais organizado para comparar.

Camboja → Tailândia → Singapura: Cria uma narrativa crescente, onde cada lugar é mais organizado que o anterior.

Suíça → Nápoles: Nápoles vai parecer caótico e sujo, mais do que normalmente é.

Nápoles → Suíça: Nápoles é lindo dentro do que se propõe a ser, e a Suíça se torna o ápice.

Não é sobre julgar os lugares. É sobre gerenciar expectativas e criar uma jornada que faça sentido emocionalmente. Cada destino tem sua beleza, mas a ordem pode transformar a experiência de frustrante em inesquecível.

Conselhos Práticos para Quem Vai para a Ásia

  1. Pense na narrativa: Comece pelos lugares mais rústicos e termine nos mais organizados. Evite quebras de expectativa.
  2. Seguro viagem é indispensável: Tive intoxicação alimentar e rompi ligamentos. Em ambos os casos, o seguro me salvou. No primeiro, não desembolsei nada. No segundo, fui ressarcida em uma semana.
  3. Não se coloque em risco: Hostels de 1-2 euros podem parecer uma economia, mas não valem a insegurança. Priorize lugares seguros, especialmente se estiver viajando sozinha.
  4. Atenção ao assédio: Mulheres viajando sozinhas precisam estar atentas. Confie nos seus instintos e não hesite em sair de situações desconfortáveis.
  5. Transporte no Vietnã: O país é muito vertical (longo de norte a sul). Voos internos são acessíveis, mas ônibus-leito são uma opção econômica e confortável para quem tem tempo.
  6. Valores no Vietnã: Hospedagens limpas e bem localizadas custam até 100 reais por noite. Refeições giram em torno de 20 reais. É absurdamente barato.
  7. Tailândia ficou mais cara: Desde 2016, os preços aumentaram, especialmente em ilhas turísticas. Ainda assim, vale a pena.
  8. Combine países: Vietnã + Tailândia + Singapura é uma combinação perfeita de história, praias e modernidade.

Mensagem final

Viajar é transformador, mas planejar bem faz toda a diferença. Em 2016, paguei por uma agência que não pensou no meu melhor interesse. A ordem dos países foi aleatória, as hospedagens foram escolhidas apenas pelo preço, e eu enfrentei perrengues que poderiam ter sido evitados. Em 2025, com mais experiência e uma narrativa bem construída, a viagem foi infinitamente melhor, mesmo com um pé machucado.

Se você quer evitar os perrengues que eu já passei por você, me chama. Vamos fazer sua viagem para a Ásia pensando nos seus gostos, no seu estilo de viagem e, principalmente, na ordem que faz sentido para você. Porque a ordem importa. E muito.

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